Bruno Ferreira

Conhecer o Bruno foi um feliz acidente. Não me recordo com exactidão como aconteceu, mas todas as memórias prévias a esse momento são dele com uma câmara na mão. Foi, por isso, sem surpresa que me reconheci numa das fotos do seu Saber que algo se deu meses depois. Depressa aprendi que o registar automático do momento e a perseguição de um tempo individual e anónimo em cada espaço são características essenciais de quem o Bruno é e daquilo que ele faz. O seu coração pertence ao Cinema, mas neste momento está numa relação com a Publicidade, sem um pingo de culpa. Pelo caminho, surgiu o desafio das Publicações Nabo para guardar em livro o seu diário visual. Hombre, o resultado desse desafio, é lançado nesta quinta-feira numa exposição pop-up n’A Pequena Galeria e é o mote para esta conversa.

Começando por aquela pergunta clássica: como é que percebeste que querias ser realizador?
É uma pergunta clássica e é uma pergunta fácil. Não há muita gente que saiba disto, mas eu tenho orgulho em contar esta história. Quando era miúdo, chegava a casa e via o meu pai constantemente a montar vídeos de casamentos e baptizados. Passei a minha infância a ver aquele processo de montagem de VHS para VHS. Ele filmava casamentos e desde sempre me lembro de o ver a ele e ao sócio dele a esvaziarem garrafas de uísque enquanto montavam a edição final dos filmes noite dentro.

E o teu pai alguma vez te levou a um casamento para veres o processo de gravação?
Sim, claro. Várias vezes.

Tu gostavas dessa posição quase voyeurista de o observar a fazer o trabalho dele?
Adorava. Todo o processo do rewind e do forward e de escolher aqueles pormenores que fazem com que tudo tenha sentido. Sinto que foi aí que aprendi a noção de narrativa. Mesmo sendo vídeos de casamentos, havia uma narrativa a cumprir: tinha de se filmar a recepção em casa dos noivos antes do casamento, o momento da igreja e tudo o que se seguia. E aquilo ficou impresso em mim. Foi tão determinante para mim que cheguei a fazer um vídeoclipe para Riding Pânico só com footage de casamentos e baptizados dos anos 1980 e 1990 que fui buscar aos brutos que o meu pai ainda guarda. Foi quase uma homenagem ao meu pai.

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Mas, em miúdo, começaste logo a desenvolver uma curiosidade sobre filmar ou era a parte de edição que te interessava?
Por acaso, eu comecei ao contrário. Adorava os botões e a parte técnica. Tinha a sorte de ter um pai sempre muito “tecnológico”. Iam sempre aparecendo câmaras por minha casa e o meu pai fez questão de que eu e o meu irmão tivéssemos as nossas também. Penso que recebi a primeira aos 5 anos e ganhei o hábito de documentar tudo.

O que é que registavas com essa câmara?
Era uma câmara de fotografar e, sempre que existia uma saída familiar, eu trazia-a comigo. Os meus pais tinham o hábito de ir à Gulbenkian com frequência e lembro-me que um dos meus registos favoritos foi precisamente lá, numa exposição sobre profissões.

E foi-se mantendo o gosto pela fotografia e pela realização depois disso?
Na adolescência, fui-me afastando. Era um universo omnipresente, mas é uma altura em que começas a receber tantas influências e acabei por me desligar um pouco desse imaginário.

Então como é que surgiu a realização de novo?
Quando saí do secundário, comecei logo a trabalhar em produção. Não houve nenhum motivo em particular, simplesmente um amigo endereçou-me o desafio e eu aceitei. Ao mesmo tempo, comecei a estudar Publicidade na faculdade à noite. A minha vida estava mais ou menos equilibrada entre estas duas coisas. Mas sentia que era terrível a fazer produção e, como sou naturalmente curioso, comecei a interessar-me pelo trabalho dos realizadores com quem trabalhava. Tudo aquilo começou a fascinar-me, então propus-me para assistente de realização. Durante seis meses, fiz um estágio e acompanhei os realizadores que trabalhavam na produtora. Foi bom para perceber muito do trabalho, mas continuava a sentir que me faltava uma compreensão mais teórica e profunda sobre a realização. Decidi voltar a estudar. Como os meus pais não eram ricos, pedi um empréstimo ao banco e fui estudar Realização para Nova Iorque.

Foi um grande passo. Como é que foi a experiência em Nova Iorque?
Muito intensa. Tinha 21 anos quando fui para Nova Iorque e aquilo apanhou-me numa altura de muita agitação na minha vida. Subitamente, estava em Nova Iorque, numa cidade que, pela sua monumentalidade, nos faz sentir muito pequenos. Tudo aquilo me remetia para os universos cinematográficos que já conhecia – na altura, ainda não me tinha ligado muito ao cinema e à estética europeias e era o cinema norte-americano que preenchia as minhas referências. Ao mesmo tempo, apaixonei-me lá e tudo se intensificou. Estava a viver o romantismo do cinema na pele.

E tiveste a oportunidade de filmar lá?
Sem dúvida. A abordagem proposta pela escola era muito de hands on camera e comecei a filmar desde o primeiro momento. Ia para a rua, filmava as pessoas nos transportes, o trânsito, as fachadas dos edifícios.

Mas a permanência lá permitiu-te outro tipo de encontros? Surgiram novas influências para o teu trabalho como realizador?
Claro! A escola organizava constantemente masterclasses com realizadores. Conheci o Spike Lee numa dessas masterclasses. A minha turma e eu passámos um dia com ele só a conversar. Éramos apenas quinze pessoas e falámos de tudo: de amor, da vida… e, no fim do dia, um dos meus colegas perguntou-lhe: “Spike, conversámos sobre tudo, mas não chegámos a falar de cinema.” E o gajo só respondeu: “Estás redondamente enganado. Nós só falámos sobre cinema”. Fez todo o sentido para mim.

Isso é um tremendo eureka. Equacionaste a hipótese de ficar em Nova Iorque ou sempre soubeste que regressarias para Portugal?
Como te disse há pouco, Nova Iorque tem essa capacidade de nos fazer sentir pequenos. E eu sentia um pouco isso. Houve uma oportunidade de trabalho lá, de ficar a assistir um professor de Realização na escola, mas o processo de obtenção dos vistos era complexo e voltei. Sabia que em Lisboa não seria difícil voltar a trabalhar e queria estar aqui.

E foi assim que recomeçaste na publicidade…
Sim, rapidamente surgiu uma oportunidade de começar a realizar filmes de publicidade e eu agarrei-a. Na verdade, sinto que tenho uma relação muito interesseira com a publicidade, mas estou completamente tranquilo com isso. Ela aproveita-se de mim, das minhas ideias, da minha estética e da minha versatilidade, ao mesmo tempo que eu me aproveito dos recursos dela e de uma liberdade criativa, ainda que condicionada, para experimentar algumas coisas. Apesar de tudo, não é um campo em que se paga muito mal, por isso mantemo-nos nesta relação interesseira. Também me dá tempo livre suficiente para eu poder dedicar-me aos meus próprios projectos.

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Fala-me desses projectos. São os vídeoclipes que tens feito?
Em parte, são os videoclipes, mas também são os scripts que fui escrevendo e deixando na gaveta, as curtas, os documentários. Como o documentário de PAUS que gravei totalmente em VHS e que só vai ser lançado daqui a 20 anos. No fundo, acho que ainda não reuni as condições necessárias para fazer acontecer todos os meus projectos como quero. Ainda aguardam a melhor oportunidade.

Então a ideia de realizar vídeoclipes não partiu de ti?
O primeiro videoclipe nasceu de uma promessa que fiz ao Makoto Yagyu e aos Riding Pânico de que realizaria o primeiro vídeo da banda. Aconteceu precisamente quando estava em Nova Iorque. A história era profundamente naïve, mas foi muito importante para mim. Em resumo, era uma história de amor entre a miúda que trabalhava no diner onde eu ia e o rapaz do restaurante tailandês. Esse rapaz era provavelmente o asiático mais bonito que já vi (desculpa, Makoto, tu és lindo, mas este era ainda mais lindo!). Então lá os fiz perseguirem aviõezinhos de papel até se encontrarem um ao outro.

Era a Nova Iorque romântica…
Sim, estava imbuído daquele espírito. Tive a ideia, falei com as pessoas e fiz acontecer tudo muito intuitivamente. Depois, já em Portugal, fiz o primeiro vídeo de PAUS para o EP Era uma Água e isso acabou por impulsionar convites de outras bandas.

Como é que se processa a génese de um vídeo? A banda chega-te com uma ideia ou és tu que desenvolves tudo?
Depende. Às vezes, a banda tem uma ideia muito concreta e eu pego nela. Outras vezes, sou eu que tento explorar no vídeo o feeling que a música me dá. Como nesse vídeo do Surdo e Mudo de PAUS, rodado no Ondaparque, e que era quase coreográfico. Mas muitas vezes as bandas trazem boas ideias e isso torna-se terreno fértil para eu trabalhar.

Por acaso, a este propósito, queria que falasses em particular de dois vídeos que realizaste para os Linda Martini: Ratos e Volta.
Por causa da polémica em redor dos vídeos?

Há uma polémica? Não sabia! O que queria perceber contigo são estas dimensões em que tu colocas as bandas e que são diametralmente opostas. Primeiro, pões a banda num karaoke chinês e logo de seguida estão a gravar um vídeo quase documental na Cova do Vapor. Como é que isso aconteceu?
Existe uma polémica, sim, em parte porque decidi colocar a banda exactamente num karaoke chinês numa canção chamada Ratos. A primeira correlação vinha daí. Mas é óbvio que para mim nunca existiu essa ligação. Quando ouvi a canção pela primeira vez, surgiu logo na minha mente a imagem da banda a cantar karaoke. E a partir daí fui construindo a narrativa. Um sítio comum, pelo menos em Lisboa, para cantar karaoke são os restaurantes chineses. A ligação foi automática. Também sabia que não podia ser só assim, precisava de personagens em redor deles, foi-se desenrolado uma trama à minha frente com personagens com backgrounds subliminares à mistura. Na Volta, tudo começou com uma ideia do André Henriques para o Ratos. Ele visualizava um quadro de redes cheias com pessoas arrastadas pela areia. Imediatamente percebi que isso seria complicado, mas que essa imagética poderia fazer muito sentido para o vídeo da Volta. Fazê-lo na Cova do Vapor foi uma opção natural. Vivi cerca de três anos em São João da Caparica e a Cova do Vapor sempre me fascinou. Pareceu-me natural gravar ali. E não foi preciso fazer quase nada. Conversámos com as pessoas que ali vivem, que nos abriram completamente as portas, e nos deixaram partilhar isto com eles. Se formos a ver, são dois vídeos completamente diferentes, com duas abordagens muito distintas, mas que não deixam por um momento de transmitir uma visão minha. Penso que uma das características mais fortes do meu trabalho enquanto realizador é precisamente essa transversalidade e a forma como cruzo fronteiras sem dificuldade. No fundo, é um reflexo da minha própria personalidade. Eu não sou o tipo de pessoa que consegue passar muito tempo com as mesmas pessoas, com os mesmos grupos.

És o eterno curioso!
Sou e isso influencia directamente o trabalho. Ao ponto de a polémica maior em relação a esses dois vídeos ser precisamente essa versatilidade. Tão depressa estou a encenar e a dirigir músicos quase como actores num vídeo, como estou a filmar num estilo documental num sítio paradigmático de uma certa identidade como a Cova do Vapor.

Pessoalmente, vejo nisso uma qualidade e não um defeito. Para mim, existe um fio condutor natural entre os dois vídeos. Mas não deixo de me perguntar como é que, com tantos projectos em mãos, o primeiro que tu concretizas é um livro de fotografia e não um filme.
Isso aconteceu simplesmente porque a oportunidade se deu. A malta das Publicações Nabo seguia o meu Tumblr e propôs-me fazer um livro. Na altura, nem sabia que fotos ia publicar ou como as escolher. Mas agora sinto que se deu um processo de transformação em mim. A selecção das fotos, a produção e a revisão do livro foram materializando uma consciência em mim sobre a minha fotografia. Percebi que as imagens reflectiam a mesma sensação de solidão, mesmo sendo fotografias tiradas muito antes de saber que seriam publicadas no livro. Sinto que esse sentimento de solidão está patente em todas elas, uma solidão que não é dos espaços, mas das pessoas, algo muito humano, mesmo que elas nem sequer estejam retratadas. Em parte, foi esse o motivo que levou ao título do livro (a outra parte é que simplesmente adoro a palavra em espanhol). O que é curioso é que, desde que fiz o livro, raramente peguei na câmara. Parece que instituí um mecanismo de edição a mim próprio.

E como é que se parte de um livro que nem sequer estava programado para uma estreia nas exposições?
Tenho de te dar a resposta mais franca: por uma questão de ego. Depois do tempo investido no livro e de perceber todas estas relações na fotografia, era óbvio para mim que precisava de ver aquelas fotos em grande formato na parede.

Apesar dessa descoberta e dessa auto-edição que agora sentes, queres continuar a fotografar?
A resposta a essa pergunta será sempre sim, mesmo que não faça ideia do que vem a seguir.

Normalmente, faço uma pergunta às pessoas com quem converso que pode não fazer sentido nenhum, mas que se for respondida intuitivamente acaba por demonstrar muito das pessoas e queria fazer-ta a ti. Como é que te vês daqui a dez anos?
Como é que me vejo daqui a dez anos? Não tenho a mínima ideia. Mas posso dizer-te como quero acordar amanhã: com café, ovos e torradas.

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Saber que algo se deu
Site do Bruno
Linda Martini – Ratos
Linda Martini – Volta
Riding Pânico – Monge Mau

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