Susana Pomba

Longe vão os dias em que uma inocente pesquisa no Google pelo nome de um ilustre anónimo não resultasse em inúmeros resultados. As redes sociais transfiguraram as distâncias entre as pessoas e o que une outrora desconhecidos pode advir de um simples click. Susana Pomba é de um tempo anterior a tudo isto e pertence a uma geração em que a comunidade se fazia pelo boca a boca e pelo acompanhar contínuo do trabalho dos outros. Ainda assim, se fizermos o exercício de pesquisar pelo nome de Susana num qualquer motor de busca virtual veremos que Susana pratica a ubiquidade.

Formada em Belas Artes, nos anos noventa, Susana Pomba é fotógrafa e curadora, mas também já foi jornalista, crítica, DJ e pelas suas mãos passa ainda a edição de livros de arte. Foi a curadora responsável pela exposição O dia pela noite, que celebrou o 10.º aniversário da discoteca LuxFrágil, está nos comandos da vertente editorial da companhia lisboeta Teatro Praga, é guardiã convicta do Miss Dove, blogue que iniciou em 2007 e que documenta grande parte da cena das artes visuais em Lisboa, e – porque isto poderia parecer pouco – é a cabeça, o coração e as mãos do Old School, um projecto curatorial mensal apresentado na Escola das Gaivotas.

Como é que nasceu o Old School?
O Old School (OS) nasceu a seguir à exposição no Lux. Um projecto de grandes dimensões, com obras de grande escala, de longa duração e no espaço de uma discoteca exigiu moldes muito particulares. Depois dessa exposição, que na realidade foi o meu primeiro grande projecto, quis voltar à estaca zero, como se o OS pudesse ter sido a minha primeira grande experiência como curadora.  Olhei à minha volta: tinha anos de trabalho com artistas plásticos e uma relação estreita com o Teatro Praga, para quem tirava fotografias e fazia publicações. Queria começar um projecto que não precisasse de uma base sólida financeira, sem grande equipa e que pudesse ser feito apenas por mim e pelo artista dentro de um espaço e tudo o que dele vem ― a Praga. Foi isso que acabou por definir a génese do projecto. Motiva-me a produção de uma nova criação, de uma nova peça. Não tenho muito interesse em ser apenas “curador post-it”, alguém agarrado a catálogos e a seleccionar obras por preferência, tema, escala ou suporte. Preciso de conhecer as pessoas e criar uma relação de trabalho. A coisa mais gratificante para mim, desde sempre, é impulsionar o processo de criação de peças novas.

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foto: Susana Pomba

Sempre pensaste em apresentar o Old School no espaço do Teatro Praga e espaços vizinhos? Como surgiu isso?
O Old School nasceu por causa do Teatro Praga, do seu espaço, do material técnico que acumularam durante os seus 19 anos de existência, do apoio que sempre me deram. Na minha cabeça, antes de existir nome, existia a vontade de fazer um projecto de artes plásticas no espaço da Praga. Além de tudo isso, a colaboração com eles cumpria perfeitamente a minha intenção de cruzar mundos: uma companhia de teatro e os artistas plásticos. Era evidente para mim que muito do que os Praga trabalham, em termos de suportes, props, preocupações e práticas intelectuais e criativas, eram as mesmas de muitos artistas plásticos. Vejo o que existe em comum entre os dois mundos, tanto ao nível prático e material como criativo, e por isso queria aproximá-los. Comecei em 2011 num armazém no Poço do Bispo, e em 2013 quando a Praga ganhou o concurso para a Escola das Gaivotas, mudei-me com eles. Entretanto também fiz Old Schools noutros locais, como o São Luiz Teatro Municipal (uma reprise do OS#3 do Pedro Barateiro), o Théâtre de la Ville, em Paris (integrada na programação dos Praga para os Chantiers d’ Europe), no Cão Solteiro (com o artista Igor Jesus) e no Atelier-Museu Júlio Pomar (com o artista António Bolota). Estes dois últimos locais, nossos vizinhos e irmãos na zona do Poço dos Negros, foram escolhas que vieram de uma contingência momentânea: o espaço da Rua das Gaivotas entrou em obras e eu queria dar continuidade à programação do OS. Mas a ideia central sempre foi fazer na Praga. Tanto que acabei por ser a primeira a ocupar o espaço da Rua das Gaivotas, logo que nos mudámos em Junho de 2013. Mas também é bom andar pela vizinhança de vez em quando.

É fácil o processo de encomendar novas peças aos artistas com que trabalhas?
No início do projecto, em 2011, pensava que não poderia fazê-lo, porque não tinha dinheiro, a crise já estava instalada e sentia-se uma preocupação crescente com o financiamento. Então pensei: “Vou ser prática, tenho um espaço e algum apoio, vou começar devagar, a mostrar filmes de autor que não tenham sido apresentados em Lisboa”. Assim foi. O meu primeiro Old School foi mostrar um filme do Vasco Araújo, Insula, feito com a Porta33 na Madeira, que eu adorava e que nunca tinha passado em Lisboa. A minha outra ideia era pedir a um artista uma selecção dos seus interesses, dos seus materiais-satélite, o que aconteceu com o OS dos Sara & André, logo no número 4, que apresentaram uma playlist de vídeos escolhidos por eles. Queria deixar a definição do projecto em aberto, permeável a uma constante reconstrução. Não queria um projecto estanque e com grandes definições. Fui crescendo. Mas rapidamente percebi que os artistas estavam receptivos a criar obras novas. Os próprios Sara & André fizeram um vídeo novo, com a Luísa Homem, que passava por entre essa tal playlist. E isso acabou por tornar o Old School naquilo que é hoje: um momento que um artista aproveita para reavaliar o seu trabalho e experimentar outra coisa, que pode ser outro suporte, uma colaboração nova, uma ideia que tinha na gaveta que nunca tinha avançado. Isto pode e deve acontecer ciclicamente a qualquer altura de uma carreira ― seja o artista muito jovem, esteja a meio da carreira, ou já consagrado. Um momento efémero em que se ensaia uma obra ― essa liberdade não se coaduna tanto com uma galeria, um museu ou um espaço institucional repleto de sacralizações e pesos, mas encaixa na perfeição na relação recíproca e de liberdade criativa entre artista e curador que tento estabelecer no OS.

Se um artista tiver a vontade de te propor algo, ele reconhece em ti a confiança para o fazer. E daí parte-se sempre para um processo colaborativo?
A real colaboração no OS acontece no momento em que curador e artista se juntam para produzir os elementos de divulgação: o blackboard e o trailer. Depois desse momento, eu estou lá para perceber o que tenho que fazer para ajudar, facilitar e levar tudo a bom porto. O que eu quero é ajudar a fazer aquela peça acontecer. A obra é do artista. Eu estou lá para perceber até que ponto posso ser útil. E, por vezes, útil pode ser estar em silêncio ou desaparecer. E há artistas que abrem mais a porta do que outros. Mas todos os meses é diferente, cada processo de trabalho e cada artista tem as suas particularidades, e eu, que sou o elemento estável nesta equação (aquele que não se vai embora), também mudo todos os meses.

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foto: Susana Pomba

Tu não és um daqueles curadores que pintam uma mensagem em cima da obra desta malta. Tu não queres que os criadores cumpram uma mensagem.
De todo, de maneira nenhuma. Tenho expectativas, quando convido um artista, procuro conhecê-lo bem e às suas obras. Nunca é um tiro no escuro. Tenho de achar que esse artista terá abertura para uma proposta assim. Porque esta proposta não é para limitar, pelo contrário, é para abrir possibilidades. Estou sempre aberta a quaisquer hipóteses, não estou de todo à espera que tenham de ser trabalhos performativos ou seja o que for. Espero apenas que respondam às contingências do evento – é só uma noite, com três horas no máximo. Os limites vêm daí e não da minha vontade. O que é importante para mim é esta relação que se estabelece entre mim e o artista e que é de total liberdade criativa. Nem poderia ser de outro modo. Não quero impor pensamento. A minha gestão é relacional, humana, profissional e, às vezes, criativa. Não quero impor bandeiras ou conceitos.

Achas que os artistas beneficiam desta experiência?
Os resultados para o artista são sempre mais íntimos: o que é que a exploração de técnicas, métodos e materiais trouxe para o seu trabalho só o artista sabe e esse caminho vai percorrendo sozinho. Mas também há resultados práticos muito bons: como a palestra-performance do Pedro Barateiro que já foi apresentada noutros sítios, em Antuérpia, Paris e Roma. A peça do Sam Smith no OS, um artista australiano que veio a Lisboa a propósito de uma exposição individual na 3+1 Arte Contemporânea, acabou por chamar a atenção da Filipa Ramos, que também é curadora, e que levou a obra ao ICA, em Londres. Acho que o Manuel Botelho ficou muito contente, por exemplo, porque nunca tinha feito uma performance e isso era novo para ele. Quando vejo que um artista fica satisfeito com o resultado é uma sensação imbatível.

Para ti, não faz sentido que o Old School se ligue a uma instituição e perca o seu carácter DIY?
Não. Já o faço há três anos desta maneira. Para mim, já não faz sentido alterar a premissa desta relação entre curador-artista e que se baseia essencialmente nesta partilha. Uma instituição traz outras coisas.

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Apesar do teu trabalho curatorial estar mais circunscrito às artes visuais no Old School, tu nunca te limitaste a essa área. És responsável pela Props, do Teatro Praga e também escreves.
Escrevo sim, sempre escrevi. Fiz as Belas Artes, e pouco tempo depois comecei a escrever em sites e na Flirt, um roteiro gratuito de Lisboa, dirigida pela Cláudia Castelo. Sempre estive envolvida, de uma maneira ou de outra. com a edição e com publicações. Mais tarde, fiz uma pós-graduação em Curadoria, e depois em Edição de Livros e Suportes Digitais. Todas essas decisões são claras no que diz respeito os meus gostos, aos meus interesses. O Old School acaba por ser o meu projecto “duracional”, é o mais persistente, aquele em que me sinto mesmo a criar um público passo a passo. E o blogue também é um projecto de persistência e de duração.

Achas que o grupo de pessoas que segue o blogue e o Old School tem efectivamente crescido?
Sinto que sim, é preciso ter paciência, as pessoas vão e voltam. É preciso continuar. O OS, por exemplo, cresceu bastante desde que me mudei para a Rua das Gaivotas.

Eu vejo-te como que a fazer um trabalho curatorial não só nas artes visuais, mas também na parte editorial. Por exemplo, a Props não é uma publicação convencional, é muito mais próxima do universo de um livro de autor. E, ao mesmo tempo, com o blogue, tens estado a fazer um trabalho de arquivo e de memória para as artes visuais e performativas. É uma leitura correcta do teu trabalho?
Sim, o que distingue tudo isto é a forma como abordo as coisas. O blogue também é pessoal. Mesmo que eu tente ser abrangente, não sou generalista. Além de um arquivo de memória colectiva, o Miss Dove é também uma espécie de diário, percorre a minha vida. Serve para me fazer ver coisas novas. Estou sempre à procura de artistas novos, e de continuar a seguir os que já conheço. Não quero ficar estanque numa geração, mantenho essa preocupação. A particularidade das coisas em que me envolvo, seja a Props ou o Old School, é que são sempre processos colaborativos. O que não quer dizer que também não haja trabalho e evolução individual. A minha ideia de colaboração é a de procurar um sítio comum com a outra pessoa. Não tenho medo de discussões que possam surgir até chegar aí, essas discussões, bem feitas, podem fortalecer a relação, amadurecer. Nada me aborrece mais do que uma convivência amena. Na Props, que faço com e para o Teatro Praga, muitas definições se misturam, sou editora mas também criadora, e ainda várias outras coisas. Agrada-me que isso me faça pensar o que é um autor, o que é um editor. Mas, no final, o que me interessa realmente é fazer aquele objecto acontecer. Desde sempre vi o trabalho como um processo colaborativo, tudo tem que nascer dessa batalha.

Não sentes, por vezes, que o teu trabalho é demasiado invisível?
Sou muitas vezes uma go-between, e isso é invisível, sim. Mas faço-o por pessoas que o merecem e que me respondem na mesma moeda, com grande generosidade. Gosto de servir de intermediário para que outras pessoas se conheçam e trabalhem em conjunto. Quando resulta é muito bom. O que faço na vida tem muitas partes, que tenho que ir gerindo, algumas delas são secretas. No Terceira Idade, um espectáculo do Teatro Praga, diz-se a certa altura que agora o que é mais difícil é fazer algo que não fique. É um exemplo extremo, mas não sinto que tenha de ter protagonismo para sentir orgulho no que faço. Prefiro que as obras dos artistas sejam mais visíveis do que eu.

Achas que estás a contribuir para o fortalecimento da comunidade artística? Achas que és um dos cimentos que fortalece as raízes desta comunidade?
Sem dúvida. Sou uma parte. Faço o blogue para que um artista me peça as fotografias, para que um professor numa aula as use para falar do trabalho de alguém, para que quem está longe veja o que se faz por cá. E por mais uma série de razões. Há poucas pessoas a querer fazer isto, porque é um trabalho oculto de persistência que apenas dá frutos visíveis e gordos depois de longos anos. Mas não existe uma estratégia rigorosa e delineada ― grande parte do que faço é instinto.

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Reconheces outras pessoas lá fora a fazer o mesmo?
Sem dúvida. Mas muitas vezes essas ideias rapidamente se institucionalizam e se modificam. A diferença é que o meu continua a ser pessoal e não perdeu essa proximidade particular com os artistas. O meu blogue acompanha o que faço, o que decido ir ver e continuo a querer ver muita coisa, continuo a querer pensar no que se cria. Continuo a querer não perder o passo.

Estás a criar a tua biografia publicamente.
Algumas pessoas pensam que sim. Mas é preciso um leitor muito atento para perceber mais do que “eu estive ali com aquelas pessoas”. Isso é só uma camada que está à tona. Para mim, esse lado é uma parte reduzida do total que é a minha vida.

Da forma como vejo, escolheste documentar todo este trabalho que vai sendo feito nas artes visuais, não só por gosto, mas quase porque se tu não o fizesses talvez ninguém mais se dedicasse a ele.
Como já são muitos anos, passo por muitos altos e baixos e concluo que isso não me pode definir. Nessas alturas, paro para pensar e inicio um novo projecto. A última coisa que quero é estar aborrecida. Mas o que realmente me motiva é fazer projectos que me dêem gozo e que tenham um efeito na minha comunidade, nas minhas pessoas, sejam quantas forem. E sei que às vezes é difícil e demora tempo, por isso tento ser paciente para compreender o efeito que o meu trabalho tem, por muito subtil que possa ser.

Tens alguns projectos na gaveta? Como te vês no futuro?
Quero escrever mais. E outros projectos do lado da curadoria, é o que me falta e me completa neste momento. E mais uma quantidade de coisas, em segredo ou em voz alta, que ainda não sei porque ainda não cheguei lá. É a melhor parte.

Old School
Miss Dove
Dove TV

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