Nick Nicotine

Nick Nicotine é o alias de Carlos Ramos. Ou, pelo menos, um deles. Picos – como os amigos lhe chamam – tem personalidades múltiplas e todas elas têm vindo a influenciar os destinos da sua cidade, o Barreiro. A poucos dias de mais uma edição do festival que lhe passa pelas mãos, sentámo-nos para conversar a três sobre os heterónimos musicais, a editora/promotora/faz-tudo Hey, Pachuco! e os inúmeros outros projectos ― dos Los Santero aos Act Ups, passando pela Nicotine’s Orchestra e os Bro-X ― aos quais dá cara, corpo e coração. Afinal, também nós temos muito a agradecer-lhe, porque foi no Barreiro Rocks 2006 que a Vera e eu nos encontrámos pela primeira vez.

Rita – Eu tenho uma ideia romantizada do Barreiro como se se tratasse de um campo de forças onde nada existe e onde tudo surge pela iniciativa de malta como tu.
Sim, toda a gente tem.

Rita – O teu papel nisto, enquanto músico e enquanto impulsionador da actividade cultural da cidade, começou há já uns anos. Foi por causa deste aparente vazio que começaste a sentir necessidade de pôr mãos à obra?
Não foi nada premeditado, não foi sequer consciente. Partiu tudo de um acto um pouco egoísta até; foi a minha vida, o meu percurso pessoal que me trouxe aqui.

Rita – Começando pelo início, sempre quiseste ser músico?
Não. Por acaso, ontem fui tratar de um dente e a propósito disso até comentei que quando era miúdo queria ser dentista. No 9.º ano, escolhi a área de Saúde, mas, no Verão seguinte, vi um acidentado todo ensanguentado e percebi que afinal não tinha perfil para a medicina. Acabei por mudar para Humanidades.

Vera – Mas quando é que começas a tocar um instrumento?
Comecei muito cedo. Uns familiares tinham um pequeno Casio, que até tinha uma calculadora incorporada, e que agora está comigo no estúdio, e eu comecei a brincar com ele quando tinha uns 5 anos. Tenho também fotos minhas quando tinha 3 ou 4 anos no meio dos discos, já com os headphones na cabeça, tranquilamente a ouvir música.

Vera – Tinha a sensação de que terias aprendido a tocar piano na orquestra.
Na realidade, não. Aprendi a tocar piano bastante cedo. Os meus pais deram-me um piano quando era miúdo, mas naturalmente tive de ir para uma escola aprender a tocar. Como em qualquer escola, começava-se pela teoria e no primeiro ano mal toquei no piano. Para mim foi frustrante, porque era um miúdo de 8 ou 9 anos e tudo o que queria era explorar o instrumento e queria muito fazer som. Isso levou-me a deixar o piano e a preferir jogar à bola. Só no 7.º ano, já com 12 anos, é que volto a interessar-me pelo piano sem desprezar a parte teórica. E depois, claro, chega a adolescência, sai o Smells like teen spirit e eu começo a tocar guitarra. É que a guitarra dá para levar para a praia e o piano não! Foi o início do caos lá em casa.

Vera – Então explica-me como é nesse percurso surge esta coisa meio inusitada de tocar numa orquestra.
Isso foi mais tarde. No secundário, tive as minhas primeiras bandas. Logo depois, estive um ano no Conservatório de Setúbal a estudar guitarra. Não tinha emprego fixo, dedicava-me quase na totalidade ao estudo, até que alguém me desafiou para tocar piano na Orquestra Ligeira do Barreiro. Tocávamos standards de big bands e eu até curtia aquilo.

Vera – Até quando se prolonga essa participação na Orquestra?
Lembro-me de acabar um concerto da Orquestra no Barreiro às três da tarde e de ir para Lisboa para uma matiné no Ritz com X-Acto. Imagino que isto tenha durado mais ou menos até 1996, altura em que eu andava a curtir hardcore.

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Vera – Nessa altura, já tinhas tido bandas?
Foi nessa altura que tive as minhas primeiras bandas, sim. Tocava bateria numa banda com malta lá do bairro, embora nunca tivesse aprendido a tocar e nem sequer tivesse uma bateria. Mas tinha dois baldes grandes e safava-me a tocar naquilo. Teve três nomes e nem sei qual deles o melhor: Putos Rebeldes, Geração Atrofiada e acabou como Ervas Daninhas. Anos mais tarde, houve outra banda que chegou a pedir-nos autorização para ficar com esse mesmo nome.

Vera – Era uma banda de punk?
Sim, era punk ou hardcore. Era o que ouvíamos naquela altura.

Vera – Sim, porque tu ganhaste a alcunha de Picos por causa dos spikes.
Isso não é bem verdade. Foi por causa de um corte de cabelo.

Vera – Mas um corte de cabelo punk com spikes?
Nada disso. Até seria fixe, mas não foi nada disso. A história da minha alcunha prova como se conseguem cimentar rapidamente rumores. Na altura, eu tinha um cabelo bastante grunge, até que o resolvi cortar mais curto. E no dia em que vou para a escola com o novo corte de cabelo, apanho uma tempestade de vento e o cabelo fica completamente desgrenhado. Às dez e meia dessa manhã, entro na aula de Alemão e um chavalo da minha turma, o Ruca, vê-me e grita “Pareces um Picos!”. Até hoje não faço ideia o que ele queria dizer. Mas no intervalo seguinte já era o Picos e nunca mais deixei de ser.

Vera – Ficou para a vida! Mas voltando à história inicial. Ajuda-nos a perceber esse historial todo de bandas.
Eu próprio tenho algumas dificuldades. A minha primeira banda foram os Ervas Daninhas no 12.º ano.

Vera – Foi tarde, isso.
Sim, foi tarde. Lembro-me perfeitamente: comecei a aprender guitarra no dia da primeira emissão da SIC. Tinha uma guitarra parada em casa – que o meu avô trouxe de Espanha para a minha mãe – à qual faltavam os afinadores. No sábado anterior ao primeiro dia de aulas do 10.º ano, fui tomar pequeno-almoço com a minha mãe ao Barreiro e depois fui comprar os afinadores. Aprendi sozinho os acordes e fui com bolhas nos dedos para o primeiro dia de aulas. Por sorte, o meu colega de carteira nesse primeiro dia era o Nelson (Fast Eddie Nelson), que fez o favor de chumbar vários anos. Ele era mais velho do que eu e já tocava. Ainda por cima, tinha uma guitarra eléctrica. A minha mãe pagava-me o passe, mas, em vez de apanhar o autocarro no fim das aulas, ia a pé para casa propositadamente para passar por casa do Nelson, no Alto do Seixalinho. E parava sempre para poder tocar na guitarra dele. Nessa mesma altura, conheci uma banda aqui do Barreiro chamada Toast que precisava de um espaço de ensaio. Eles tinham instrumentos e eu conhecia uma garagem perfeita para ensaiarem. Então passei o 12.º ano a tocar bateria com os Ervas Daninhas com os instrumentos que os Toast nos emprestavam lá na garagem. É também nesta altura que começo a gravar sozinho em casa as primeiras malhas de Los Santeros. Em 1998, convido o Nelson e Chicken para tocar as canções dos Los Santeros e a banda mantém-se até hoje. Logo a seguir, vejo um concerto dos The Sullens e conheço o Intense.

Rita – Quem é o Intense?
O Intense, ou João Cruz, é um tipo mais velho que tocava com os The Sullens. Eles foram a primeira banda que ouvi que tinha uma proximidade estética àquilo que eu procurava nos Los Santeros. Conhecer o Intense foi quase como uma educação musical para mim. Lembro-me bem de passar horas no carro com ele só a ouvir as cassetes que ele tinha. Tornou-se no meu melhor amigo e mentor.

Vera – Aquele rock mariachi?
Sim, era um bocado isso. Fazia lembrar o rock’n’roll dos The Cramps. O Manuel, vocalista, era um frontman incrível e tinha uma performatividade invejável. Eu já o conhecia de vista, porque ele era dono da única loja de discos fixe do Barreiro. Chamava-se Ferro e Fogo e servia como um ponto de encontro para a malta das bandas de cá – dos Toast aos Gasoline. Basicamente, passavas por lá para descobrir e ouvir discos bons.

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Rita – E, nessa altura, vocês viam muitos concertos cá no Barreiro ou tinham de sair para verem o que queriam?
Víamos cá, claro. Na época em que começo a ser mais activo nestas andanças, no início da Hey, Pachuco!, ainda funcionava o El Matador.

Vera – O espaço onde eu comecei a tirar fotografias.
Sim, um espaço incrível que basicamente era um barracão onde havia um palco e um PA. A Câmara Municipal estava nos comandos do espaço, mas bastava fazeres uma proposta e conseguias organizar um concerto. Além disso, já havia o Alburrica e outros espaços mais ou menos informais onde se podia fazer concertos. De certo modo, é muito similar ao que se passa agora, mas nessa altura existiam mais bandas e mais coisas a acontecer.

Rita – Havia mais efervescência?
Sem dúvida. Para teres uma noção, havia três salas de ensaios no Barreiro por esses dias e era sempre muito complicado encontrá-las livres para ensaiar.

Rita – Isso leva-me à minha pergunta inicial. Que se passa nesta cidade, em que parece que sempre que viras uma esquina encontras um músico?
Não há uma resposta certa para isso. Acho que sítios como este permitem uma certa fluidez de ideias. Ainda existem alguns espaços familiares, que proporcionam o encontro das pessoas e isso indubitavelmente leva a algo. Por exemplo, este sítio onde estamos agora, os Penicheiros, tem uma sala enorme e ampla, onde podes ficar a conversar a noite toda. A Hey, Pachuco! nasceu aqui e no El Matador, assim como muitos outros projectos e associações. Acho que este processo, assim muito transparente, estimula a criatividade, porque acabas por influenciar a pessoa que está ao teu lado.

Rita – Há uma sensação muito forte de comunidade. Podia imaginar-se que existiria alguma competitividade, mas existe muito mais a prática de sinergias.
É certo que tens grupos que não se misturam, mas provavelmente aqui há mais cruzamento do que noutros sítios. Pelo menos, aqui existe um grupo muito homogéneo de pessoas que tanto vai ver a malta do hip hop, como vai ao DJ set de house, como vai ver o metal ou o rock’n’roll. Sente-se que existe uma rede que liga estes pontos. Nós, na Hey, Pachuco!, temos trabalhado para manter essa rede. Sentimos que há uma união e, acima de tudo, uma interacção. No entanto, também sinto que, hoje em dia, é preciso promover e fortalecer essa rede.

Rita – E isso terá que ver com o facto de sentires que as gerações de hoje não estão a seguir o legado da tua geração?
Penso que sim. Há dois anos, começámos um projecto novo chamado programa Jovens Músicos. Isto porque estava cansado de ouvir malta da minha idade dizer que os putos de agora têm tudo quando me parece evidente que têm cada vez menos. Se querem um sítio para tocar ou ensaiar no Barreiro, já não têm. Na nossa altura, esses sítios existiam. Também não existem grupos identificáveis como antigamente, em que ias para a escola e sabias logo quem era a malta da música.

Rita – Mas porquê?
Há aqui um problema da própria cidade. Os espaços começaram a desaparecer. Neste largo (dos Penicheiros), havia vários bares e, neste momento, está tudo fechado. Na altura em que o El Matador encerra, também a concessão dos Penicheiros muda e começou a banalizar o preço do álcool. Isso alterou profundamente a dinâmica desta zona.

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Vera – Sim, eu lembro-me que o primeiro concerto de Frango que vi foi exactamente no meio desta sala e pouco tempo depois isso seria impossível.
Essa alteração dos preços e do tipo de programação deste espaço acabou por tornar esta zona mais permeável à insegurança. A Polícia começou a ser mais frequente nas áreas circundantes. Quem estava na rua, especialmente quem estava dependente de drogas, começou a ser quase “empurrado” para esta zona e as pessoas ficaram com medo de sair aqui. Lisboa fica a apenas 15 minutos do Barreiro e, por consequência, toda uma nova geração abdicou facilmente de ficar por aqui e começou a ir para Lisboa. Acontecia-me ir tocar a Lisboa e encontrar miúdos de 20 e poucos anos do Barreiro que simplesmente não saíam cá. Este êxodo destrói qualquer comunidade.

Rita – Com a decadência dos espaços que a comunidade antiga habitava a malta nova acabou por optar por uma fuga para Lisboa.
Sim, perdeu-se a ligação dessa geração à cidade e obviamente uma cidade sem pessoas não é nada. O sentimento de identidade e de pertença dissipou-se e os efeitos disso são reais. Já ninguém faz negócios no Barreiro. Eu trabalho deste lado, porque tinha raízes aqui e fazia sentido para mim, mas percebo que, chegando a adolescência e a juventude, em que começas a estudar em Lisboa e o Barreiro passa a ter a função apenas de dormitório, a tua relação com a cidade começa a ser mínima.

Rita – Ao mesmo tempo que existe essa fuga, também há malta que se aproxima do Barreiro para ver o que vocês estão a fazer aqui. No entanto, existe esse fosso geracional, faz falta uma geração que vos tenha seguido as pisadas.
Exacto e quando és confrontado com essa realidade começas a pensar no que vais fazer em relação a isso. Essa é a génese do programa Jovens Músicos. Eu tinha um estúdio que, durante o dia, estava quase sempre a meio gás, porque não há muita gente a ensaiar durante o dia. Mas eu sabia que os putos estão cá durante o dia. Então fiz um acordo com a Baía do Tejo, que são os meus senhorios e que assim se tornaram patrocinadores do projecto, permitindo que eu abra as portas todos os dias para receber miúdos no estúdio.

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Rita – Mas eu sei que fizeram mais do que abrir as portas do estúdio. Recordo-me de ver iniciativas vossas mesmo nas escolas.
Isso fazia parte da promoção do programa. Achámos que a melhor maneira de promovê-lo era precisamente demonstrar os resultados do programa no espaço da escola e assim tentar inspirar mais miúdos.

Rita – Como é que foi desenvolver o programa?
Foi simples. Procurei uma solução que fosse sustentável para todos – é bom para mim, para a Baía Tejo e para os miúdos que querem fazer uma banda e que nunca tiveram instrumentos ou espaço de ensaio. E, porque faz parte da minha personalidade, da Hey, Pachuco! e de quem está connosco, começámos a desenvolver relações com os miúdos. Há miúdos que começaram no programa e que já estão a colaborar na Hey, Pachuco!.

Rita – Miúdos que já eram público dos concertos antes do programa?
Não eram e provavelmente nem tinham ideia do que acontecia. Mas agora são e estão bastante mais atentos ao Barreiro Rocks ou ao Out.Fest e às iniciativas de que lhes falamos. Até há bem pouco tempo, havia muita rigidez nestes miúdos. Se ouvias punk, então só ouvias punk. E o que sinto é que o contacto connosco abriu fronteiras. Agora, é normal ver os putos que antes só ouviam punk a ouvir o novo disco de Gala Drop e a gostar.

Rita – Está a formar-se uma nova comunidade.
Acho que sim. Tinha de ser assim, era uma questão de sobrevivência daqueles que querem continuar a fazer cenas na cidade. As nossas gerações estão a desaparecer, têm novos objectivos e contextos, e afastam-se dos concertos. Isso poderia significar que já não teríamos público para quem tocar. Se uma cidade com 70 mil habitantes não tem público nos concertos, então qualquer coisa estaria muito errada aqui.

Vera – Lembro-me de ter uma conversa com o Nice (Miguel Afonso), que agora também faz parte da Hey, Pachuco!, sobre os concertos que ele programava no AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita). Ele dizia-me que, no início, até poderias nem ter público, mas se fores persistente o público acabará por vir.
Claro que sim. E tudo isto são baby steps. Não passa apenas por chegar e mostrar algo que eles não conhecem. Tens de fazer disto uma relação diária, não só promovendo a partilha do conhecimento, mas também integrando.

Vera – É giro pensar que, se calhar, para os putos de hoje tu és o que o Intense foi para ti.
Isso já me passou pela cabeça. São também 17 anos de diferença, já fiz as contas. Senti na pele a mais-valia de ter um mentor e está na hora de retribuir.

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Rita – Fala-nos um pouco da criação da Hey, Pachuco! e do Barreiro Rocks.
Pouco tempo depois de conhecer o Intense, comecei a tocar guitarra nos The Sullens, a banda dele. Foi com ele e outra amiga, a Yola, que formámos a Hey, Pachuco!. Nesse mesmo verão, comecei a interessar-me pela gravação, comprei um computador e gravei dois dos primeiros três discos da Hey, Pachuco! em casa. Imediatamente, comecei a pensar numa ideia megalómana de lançamento: queria apresentar os três discos de uma só vez num festival. Inventámos um selo e assim nasceu uma mais-ou-menos editora. No dia 30 de Setembro de 2000, acontece o primeiro Pachuco Fest com concertos de três bandas, The Sullens, The Ballyhoos e The Dynamic Duel.

Rita – Começaste por querer fazer o festival só com bandas do Barreiro? Como é que se deu o salto para a internacionalização?
Foi logo no segundo festival. A primeira edição foi completamente low budget. Mas, na segunda edição, já conseguimos ter bandas de todo o país, uma britânica e uma espanhola.

Rita – Sentiste alguma evolução do público da primeira para a segunda edição?
Na realidade, senti logo na primeira edição. No primeiro festival, quando virei a esquina para o El Matador e vi a imensidão de pessoas à porta fiquei logo muito surpreendido. No terceiro ano, houve um investimento significativo no festival, tornando possível trazer os Parkinsons numa altura em que andavam a tocar pelo mundo todo. Fizemos um festival bem fixe. Mas sentiu-se a necessidade de mudarmos o nome do festival. A sugestão que circulou na altura foi Festival Internacional de Bandas de Garagem do Barreiro e perante isto o Intense contrapropôs Barreiro Rocks. Nos dois anos seguintes, o percurso é mais conturbado. Em 2004, perante uma legião de malta contrafeita daqui até Madrid, vimo-nos obrigados a cancelar o festival no último momento; mas, em 2005, finalmente tornamo-nos uma associação e realizamos o primeiro grande Barreiro Rocks com os Black Lips.

Rita – Mas o que é que o Barreiro tem?
Tens de o ver e sentir. Eu sei o que tem, mas não sei explicar o que é. Tem que ver com uma sensação de familiaridade e, ao mesmo tempo, um processo de descoberta. Há muita malta que vem sem conhecer uma única banda do cartaz e sai do festival com uma nova banda favorita.

Rita – E os músicos também sentem isso?
Eu acho que sim. Talvez porque nós fazemos um esforço por bem receber, porque também somos músicos e andamos na estrada e sabemos a diferença que isso faz. Sabemos o que é acordar, fazer 1200 km de carro e à noite ter de dar tudo perante uma plateia cheia.

Rita – Também tens públicos que fazem esses 1200 km para ver o festival?
Sem dúvida. Ao longo dos anos, começas a perceber quem são os que vêm de fora. Houve um tipo que veio do estrangeiro para ver o festival e ficou a viver 5 anos no Barreiro. Na edição do ano passado, tínhamos muitos obstáculos: o orçamento era muito deficiente, o festival estava a decorrer no mesmo fim-de-semana do Mexefest em Lisboa e ainda assim esgotámos. Só veio a comprovar que quem faz o festival é o público – e não as marcas ou as megalomanias de ter vinte palcos a tocar ao mesmo tempo. É bom sentir que estamos todos ali para o mesmo, sem quaisquer diferenças, num espírito de igualdade.

Rita – Há uma sentido de família e de grande curtição.
Sim, mas nesta família tu podes e deves entrar.

Rita – E como vai ser a edição deste ano?
A edição deste ano vai ter, pela primeira vez, três dias. Cheguei à conclusão de que, apesar das questões orçamentais, valia a pena tentar fazer um festival mais alargado. Vamos ter palco no interior dos Ferroviários, mas também no exterior, sob o viaduto, e vamos fazer desta edição mais uma festa.

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Rita – Temos estado a conversar sobre o teu trabalho na Hey, Pachuco! e no festival, mas, para lá do produtor e promotor, também está o músico.
Com 50 discos editados.

Vera – A sério?
No fim deste ano, conto 50 discos.

Rita – Pode perguntar-se em que papel te sentes melhor? És mais músico ou mais promotor?
Já reflecti várias vezes sobre isso e, finalmente, percebi que sou tudo isso. Sou músico, mas tenho de pagar contas. É por isso que desenvolvo todo este trabalho, mesmo que o que faça sejam coisas que adoro. No entanto, desde o início do turbilhão do festival em agosto que só penso naqueles dias no calendário em que vou estar no estúdio. Claro que sei que isto é cíclico e, em Janeiro, vou estar com medo precisamente do contrário: de não conseguir ter mais trabalho, de não conseguir iniciar ou manter os meus projectos.

Rita – No fundo, a música também não te chega.
Não, sei que preciso das duas coisas.

Rita – Mas, além de viveres na dicotomia músico vs. produtor, também tens várias personalidades musicais dentro de ti.
Se calhar a música que vai aqui dentro é demais para uma personalidade só. O MC Cuta dos Bro-X está tão dentro de mim como qualquer outro projecto, por exemplo. Na Nicotine’s Orchestra, talvez tenha aprimorado mais a parte do texto, tentando ser mais fiel à biografia.

Rita – Sentes que, ao dividires-te em tantos projectos (e eu nem sei quantos projectos tens), estás a diminuir as possibilidades de reconhecimento da tua música?
Isso não me interessa. Antigamente, dizia que não me interessava por medo de que esse reconhecimento nunca chegasse. Mas, hoje em dia, sei que isso é indiferente para mim. Toda a gente aparenta andar numa ego trip pública nas redes sociais e isso não me interessa. Nos últimos anos, fui criando ligações a um universo musical que era para mim desconhecido –  dessas ligações, surgiu, por exemplo, o Fred, um grande amigo – e que fez ressurgir um assunto com o qual o Picos com 15 anos jurou nunca se envolver: a indústria. Ainda hoje, não percebo por que é que quando se fala de música se tem de falar de imprensa ou de notoriedade. Só me leva a crer que há muita gente a fazer música com o propósito errado.

Rita – Esse instinto já te fez recusar alguns projectos?
Já, sim. Alguns projectos declinei muito cuidadosamente; outros, quase borderline, fi-los porque gostava das pessoas envolvidas e vivo bem com isso. Não te sei bem explicar qual a fronteira, mas quando ela se aproxima eu consigo senti-la.

Rita – Sentes-te um underdog da música?
Não, de todo, precisamente porque não espero esse tal reconhecimento. O que me importa é a minha relação com a música. Gosto da liberdade de poder desconcertar – dar uma no cravo da pop e logo de seguida dar na ferradura do hip hop. A Vera está sempre a dizer-me para ser mais sério…

Vera – Digo-te apenas para te concentrares porque vejo em ti um dom tão grande que não percebo por que é que ele não tem reconhecimento.
O problema talvez seja que, com o reconhecimento, viriam outras coisas que rapidamente destruiriam esse dom e a relação social do meu trabalho. Não quero saber do sucesso ou de ser uma estrela. Uma das mensagens que tento passar aos putos do programa Jovens Músicos é precisamente de como isso pode ser uma falácia. Nós temos uma escola de vida diferente, mas as gerações de hoje quando ouvem falar em música, pensam automaticamente em programas de televisão e em notoriedade da noite para o dia. Não vou mentir, gosto de tocar para muita gente. É óbvio que gostei de tocar para um Musicbox cheio, mas sei que a sala encheu porque convidei duas pessoas especiais para tocarem uma canção comigo – o Marcelo Camelo e a Mallu Magalhães. Não ambiciono isso como objectivo para mim e estou em paz assim.

Rita – Precisas que tudo seja orgânico.
Acima de tudo, preciso de liberdade. No meu trabalho enquanto produtor, estou habituado a negociar, mas enquanto músico preciso de liberdade de todas e quaisquer pressões.

Rita – Normalmente, no final destas conversas, faço sempre uma pergunta-chavão sobre o futuro. Como é que tu vês o teu futuro próximo?
Fácil. Quero ser pai. E quero que a minha vida continue a reflectir aquilo que quero e acredito.

Barreiro Rocks
Hey, Pachuco!
Programa Jovens Músicos
The Act Ups
Nicotine’s Orchestra
Bro-X

Fotos com Inês Ribeiro

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