Inês Meneses

De tempos em tempos, o acaso transforma um momento fortuito numa memória a preservar. Foi o que aconteceu no dia em que a Vera e eu cruzámos a porta da casa da Inês e nos sentámos no sofá dela a conversar sobre por quem nos apaixonamos, sobre o que procuramos nas pessoas que entrevistamos ou fotografamos e sobre esse processo sublime de dádiva que se dá quando partilhamos algo, mesmo que com um aparente estranho. E foi essa dádiva que aconteceu.

 

Rita – Tanto eu como a Vera começámos a ouvir-te e a reconhecer a tua voz na Radar. Mas a tua história na rádio é muito anterior a esta relação que criámos anonimamente contigo. Corrige-me se estiver enganada, mas tu começaste a fazer rádio ainda no Porto.
Comecei a fazer rádio em Vila do Conde quando tinha 16 anos e nunca mais parei.

Rita – Deve haver uma história por trás disso. Ou foi um mero acaso?
O meu irmão mais velho estudava Jornalismo e estava ligado a uma rádio de Vila do Conde. Um dia, disse-me: “Tu é que tens uma boa voz para a rádio”. Na altura, não tinha noção nenhuma do que eu era fisicamente e ainda menos noção da minha voz. É uma consciência que só me chegou recentemente. Ele lançou-me o convite e eu fui experimentar, numa rádio que ainda era pirata. Percebi rapidamente que gostava muito daquilo e continuei a fazer rádio durante o secundário. Cheguei a ter um programa sobre música portuguesa com o Paulo Praça, que já era músico na altura e que andava comigo na escola. Logo depois, fui convidada para ir para uma rádio na Póvoa de Varzim, o que, para mim, já era uma evolução considerável. Acordava às 6h da manhã e apanhava o comboio para a Póvoa para fazer o noticiário da manhã. Mas o salto deu-se quando fui trabalhar para a Rádio Nova Era, no Porto. Simultaneamente, como não tinha entrado na Faculdade, inscrevi-me no curso de Teatro do Balleteatro. Portanto, estudava de segunda a sexta e fazia as madrugadas da Nova Era aos fins-de-semana. Era um trabalho que me custava bastante, porque fazia sempre a emissão da meia-noite às 6h. Mas foi uma época muito importante para mim e dou sempre este episódio da minha vida como exemplo. Costumo dizer que apanhei muitos comboios para chegar aqui – este aqui que ninguém sabe muito bem o que é. E foi naquela rádio insuspeita que fui descoberta. Apesar de achar que ninguém me ouvia, porque fazia as madrugadas, parece que as pessoas certas me ouviam. Num certo dia, quando já me estava a sentir cansada de estar no Balleteatro, passa por mim o José Alberto Carvalho na Rua de Santa Catarina e convida-me para integrar um novo projecto. Então, deixei o Balleteatro e fui para a TSF Porto.

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Rita – Desencantaste-te com o teatro e sentiste que era na rádio que te sentias realmente bem?
Eu gostei da experiência, cheguei até a escrever uma peça. Mas, como em todos os meios artísticos, era uma vida complicada, cheia de rivalidades. Percebi que gostava mesmo era de fazer rádio e entusiasmei-me muito quando comecei a trabalhar na TSF. Pouco depois, fui convidada para vir para a TSF Lisboa, onde fiquei 12 anos.

Rita – Vieste para Lisboa como 20 e poucos anos. Foi uma mudança muito repentina.
Na verdade, eu nasci em Lisboa e vivi algum tempo cá antes de ir com a minha família para o Porto. Mas voltar, aos 22 ou 23 anos, representou um corte muito abrupto com a minha vida no Porto.

 Rita – Sentiste-te bem aceite aqui, em Lisboa?
Mais ou menos. Ao início, não foi fácil. Mudar para Lisboa obrigou-me a crescer. Foi uma altura de adaptação, de perceber qual era o meu papel na TSF e de como seria a minha vida cá. Mas acabei por descobrir outra Lisboa. Comecei a sair à noite e a parar num bar chamado Captain Kirk, no Bairro Alto, e onde tudo era possível acontecer. Foi graças a esses tempos no Captain Kirk que conheci muitas pessoas importantes para mim.

Rita-  Quando é que foi isso?
Isto foi no fim dos anos 1990. Nessa altura, estava na TSF, na XFM e apresentava o Onda Curta, o programa de curtas-metragens na RTP2.

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Rita – Fala-me um pouco de como surgiram essas oportunidades para trabalhar em projectos como a XFM ou o Onda Curta.
A XFM era no mesmo prédio do que a TSF e isso tornou a coisa fácil. Falei com o Luís Montez e disse-lhe que gostava de fazer mais coisas na rádio. Acabei por ter um programa diário na XFM, em que fazia pequenas entrevistas, coisas de dez minutos. Quanto ao Onda Curta, foi simplesmente um convite que uma pessoa da RTP me fez.

Rita – Sentes que existe espaço dentro de ti para muito mais do que a rádio?
Detesto aquelas pessoas que ficam furiosas quando alguém decide fazer mais do que uma coisa. É quase como um castigo social, quase como se te dissessem “Se és boa a fazer rádio, para quê inventar e fazer outras coisas?”.

Rita – Pelo contrário, fico bastante expectante e curiosa sobre o que poderás querer fazer mais.
Honestamente, acho que o meu futuro vai ser a escrever. Mas eu já escrevo há dez anos, sob pseudónimo. Todas as semanas, escrevo duas crónicas na imprensa.

Rita – Porquê sob pseudónimo?
O pseudónimo começou por ser uma piada. Era um trocadilho.

Rita – Tornou-se sério?
Ao início, não era nada sério. Mas, hoje, tenho a certeza de que é. Já me convidaram para reunir tudo o que escrevi e há um livro editado sob esse pseudónimo. Mas é algo que não gosto de reler; era outra pessoa quando escrevi aquilo. É claro que se me perguntas “O que tens aí escondido?”, posso afiançar-te que cozinheira nunca serei. Talvez provadora de vinhos. Sinto é que não podemos condenar ninguém por sentir que a sua identidade se pode desdobrar em múltiplas. Isso é que é fascinante. Há muitas coisas que tenho a certeza de que não poderei ser; mas as formas que escolhi para me expressar foram na escrita, na rádio e na televisão, embora mais residualmente. A minha voz pode multiplicar-se de várias maneiras. É sempre a minha identidade multiplicada pelas plataformas em que eu a quero mostrar.

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Rita – Nós, eu e a Vera, sofremos do mesmo mal.
Bem! Não é mal, é bem. Temos de fazer a nossa voz chegar até onde queremos. Eu acho que a minha pode chegar pela rádio ou pela escrita.

Rita – Tu sempre escreveste? Sei que escreveste a tal peça de teatro, que imagino que tenha sido quando estavas no Balleteatro.
Sim, isso foi quando tinha 18 anos.

Rita – É um grande empreendimento para alguém com 18 anos.
Será? Era uma peça curtinha. Chamava-se Menos dez minutos de amor. Sempre escrevi e acredito que todos passamos por essa fase em que registamos tudo. Eu era muito angustiada, pensava muito em morrer. A minha mãe ainda me descreve como eu era impossível, que andava sempre deprimida e a pensar em morrer. Mas fazia parte.

Rita – Isso passou?
Desde que a minha filha nasceu que nunca mais tive essas angústias. Nunca achei que seria mãe. Era um pouco contraditório: sentia-me muito livre, porque pensava que quando a minha vida deixasse de ter piada, poderia simplesmente suicidar-me. Admiro muito as pessoas que têm esse desprendimento. No entanto, quando descobri que estava grávida, tive uma crise de falta de ar durante dois dias. Depois percebi que nunca mais teria a opção de me desprender da vida. Hoje em dia, sinto uma força de guerreira. A primeira vez que senti esta força foi quando estava grávida: estava na praia com uma amiga e surgiu um homem a assediar-nos. Instantaneamente, senti uma força animalesca, um instinto de protecção da minha filha. Fiquei mais aguerrida.

Rita – Odeio o cliché “paixões fortes”, mas tu és uma pessoa de intensidades, ainda antes da tua filha nascer.
Sem dúvida, mas o aparecimento da minha filha deu-me força. Também me fragilizou de uma forma completamente nova. Acima de tudo, vincou-me essa intensidade.

Rita – Imagino que, ao longo da tua vida, tenhas sempre procurado experiências mais intensas e desafios maiores, também para contrariar essa origem depressiva.
Profissionalmente, nem tanto. Mas com as pessoas, com as paixões, isso sim. Estou sempre a fascinar-me por alguém – sou viciada nisso. Já no trabalho é diferente. É o trabalho que vem ter comigo, mas sou eu que vou atrás das pessoas.

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Rita – Desde cedo que decidiste que querias juntar o trabalho e as pessoas, fazendo entrevistas.
Quando fui para a Radar, soube logo que queria fazer um formato de entrevistas e que se iria chamar Fala com Ela.

Rita – Porquê? Por que é que quiseste fazer entrevistas?
Porque fazer entrevistas é alongar esse fascínio, é continuar a ir atrás das pessoas.

Rita – Isso não é muito diferente do que nós fazemos. A Vera começou a tirar fotografias, porque era uma forma de se aproximar das pessoas. Eu também faço a mesma coisa quando entrevisto alguém, é uma forma de tornar público o meu fascínio por alguém.

Vera – Comecei a tirar fotos para ultrapassar algumas dificuldades e agora cheguei a um ponto em que isto me ajudou a estar sempre muito à-vontade com o outro. E isso também será o teu caso, imagino. Pelo menos, foi assim que eu me senti quando fui entrevistada por ti, senti que eu é que estava a receber algo vindo de ti. Criar essa à-vontade não te entusiasma?
Nem toda a gente se dá da mesma maneira. Há pessoas que ainda não descobriram o que podem dar. Sei que haverá sempre pessoas que poderei voltar a entrevistar, mas há outras que não vale a pena, que se repetem como uma cassete partida, não mostrando nunca quem realmente são. Isso não me interessa. O que me interessa é o que têm para dar, porque eu também ali estou para dar algo. Isto de ir atrás das pessoas e de me fascinar com elas é algo muito vampiresco. Houve uma altura em que me cansei de ir atrás das pessoas e resolvi ficar quieta à espera de ser surpreendida – também sou muito obcecada com a ideia de surpresa – e, obviamente, quando desisti, não aconteceu nada. Até que houve alguém que me disse “Vais ter de ser sempre tu a provocar isso” e a verdade é essa: se for eu a provocar, a compensação é sempre grande.

Vera – Não sei se contigo acontece a mesma coisa, mas eu sou atraída pela energia das outras pessoas.
Exactamente. Por isso é que digo que é um processo vampiresco. Os meus amigos até gozam comigo e perguntam-me “Então, nesta semana, por quem estás tu fascinada?”.

Vera – Consegues retirar inspiração dessa parte do teu trabalho, de procurar pessoas e procurar conhecê-las?
Consigo, sim. Por exemplo, ontem, encontrei-me com o Fernando Alvim às 9h da manhã para fazer um Fala com Ela, e muito rapidamente começámos os dois a reflectir sobre a questão do ódio e do amor. Tenho pensado muito na relação entre o ódio e o amor e de como temos sempre oportunidade de seguir em frente. Temos de aprender que é preciso construir o bem em cima do que está danificado. E o que vier a seguir – nisso sou bastante optimista – poderá ser tão melhor. Não gosto de pessoas que vivem focadas no passado, relembrando o momento em que eram bonitas ou jovens. Para mim, tens de fazer por ser bonita agora, no teu presente. O meu objectivo de vida é melhorar sempre, interior e exteriormente. Custa-me muito quando vejo que as pessoas perderam a esperança. Gostava que percebessem que a esperança é algo que se constrói, tal e qual a sorte.

Rita – Acho que as pessoas têm muita dificuldade em acreditar que a sorte se pode construir.
Não suporto ouvir pessoas dizerem que só têm azares na vida ou no amor. Há ciclos negativos, é certo, mas há muito mais do que isso.

Vera – Parece-me que a razão por que te rodeias de pessoas é muito semelhante à minha. É também porque, naquelas alturas em que estás menos bem, são essas pessoas que te rodeiam que te contaminam de novo com esperança. Talvez por isso, hoje em dia, leio com maior atenção as entrevistas a alguém que admiro muito – e de quem quero esse fluxo de energia, essa inspiração – e fico profundamente chateada quando essas entrevistas não me dizem nada.
Porque uma das partes ou ambas não queriam. Às vezes, as pessoas não querem dar.

Rita – Mas também estão no seu direito de escolherem o que querem que se torne público.
Sim, mas eu acredito que essa dádiva compensa sempre. As pessoas dão, mas, no meu caso, eu também dou sempre. Também por isso por vezes é preciso saber quando não é possível. Por exemplo, parei o Fala com Ela durante algum tempo e retomei agora.

Vera – Durante esse período acabaste por transpor o que fazias no Fala com Ela para a televisão.
Sim, passei para a televisão, mas nunca senti da mesma maneira. Na televisão, estou sempre mais longe das pessoas.

Rita – Porque a rádio, por oposição, dá-te um conforto que a televisão não dá.
A rádio aproxima-te muito das pessoas.

Rita – Não tens de te preocupar como é que as pessoas te vão ver, há uma liberdade muito maior.
Sim, isso é muito libertador. Para mim, é muito complicado ter a consciência constante de como estou na televisão. Ontem, quando gravei o programa com o Alvim, percebi que tinha saudades da rádio. Ainda por cima, o programa foi com a pessoa mais espontânea possível, que transformou uma entrevista numa conversa em que também se podia falar de amor e de ódio. Isso foi muito importante para mim e alimentou o meu dia. Preciso sempre de ficar agarrada a algo das outras pessoas quando faço as entrevistas. Acho que é isso que não me deixa envelhecer.

Rita – Dito assim parece mesmo vampiresco.
É capaz de ser o segredo da eterna juventude: ficar sempre fascinado com novas coisas e pessoas. Também é uma forma de evitar o tédio.

Rita – Como é que tu escolhes as pessoas que queres entrevistar? Nós, por exemplo, temos quase uma lista imaginária de pessoas e vamos riscando os nomes por ordem.
Acontece-me muito encontrar a pessoa certa por acaso. Às vezes, estou a almoçar e a pensar em quem entrevistar e passa alguém na rua que é simplesmente a pessoa certa. As coisas acontecem-me.

Rita – É bonito pensar que há uma lei de atracção que junta as pessoas certas no momento certo.

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Vera – Existe alguma entrevista marcante? Talvez a Paula Rego?
Entrevistar a Paula Rego foi um momento alto, sem dúvida, mas tenho outros favoritos. Gostei muito de entrevistar o Herman, por exemplo. Noutras alturas, comovi-me muito com certas entrevistas, como com a Isabel Ruth ou com o João Salaviza. Acabei essas entrevistas a abraçá-los. Foram pessoas que se entregaram e que me deram vontade de dizer no fim – e muitas vezes digo – “Caramba, como te agradeço pelo que deste”.

Rita – Ficaste de amiga de alguns entrevistados?
Quase todos! Mas também há ferros. Neste contexto, tudo pode acontecer. Ah, também adorei entrevistar a Rita Blanco! Vocês têm de entrevistá-la. Aquele Fala com Ela foi memorável. Assim que chegou ao estúdio, disse-me que, quando lhe fiz o convite, estava ansiosa por fazer um Fala com Ela, porque o marido dela era fã do programa, mas que se tinha aguentado o tempo todo ao telefone para não desvendar o quanto queria.

Vera – Mas tu sentes a importância que as pessoas dão ao teu convite para fazer um Fala com Ela, não? Podes imaginar como é que eu me senti quando me convidaste.
Depende das pessoas. Acho que entre nós, neste contexto em que estamos, é normal. Mas há pessoas que estão noutra escala, como o caso do Herman. Por isso, é que quando me sugeriram fazer um programa com ele, respondi imediatamente que sim. Mas continuo a gostar de escolher as pessoas e de as receber lá no estudiozinho.

Rita – Tu tens uma capacidade – que também vem dos teus anos na rádio e da tua curiosidade inata em querer saber mais sobre as pessoas – de transformar uma entrevista numa conversa, numa relação de confiança, até. Estás sempre a acrescentar algo ao que a outra pessoa está a dizer.
E ela a mim. As entrevistas são boas, porque as pessoas são boas. Não sou eu que tenho o dom de as transformar.

Vera – Existe alguém que queiras muito entrevistar?
Não penso nisso, sabes. Só havia uma pessoa que me esmagava de admiração quando era adolescente: o Rui Reininho. E claro que o conheci. Há poucas pessoas tão inteligentes quanto ele e que me consigam surpreender sempre. Sou uma pessoa muito fascinada pelo humor – que é para mim o lado mais significativo da inteligência. Cada vez o valorizo mais. Hoje em dia, as coisas mais importantes para mim são simplesmente comer e rir. Chego à rádio de manhã e tenho automaticamente dois colegas que me fazem rir. Isso acaba por ser o motor do meu dia. É algo que sempre esteve muito presente na minha mãe – ela é uma daquelas pessoas que chora a rir – e tornou-se muito importante para mim conseguir rir. Até das coisas trágicas.


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