Pedro Lourenço

Para muitos, começou por ser uma cara familiar atrás do balcão das lojas de discos Ananana e Flur ou em cima de um palco em formações com músicos como o Sei Miguel ou o Rafael Toral, mas hoje é comum ser reconhecido primeiramente pelo seu traço no papel. Tem vindo a povoar livros, discos e publicações com as figuras que preenchem o seu universo e recentemente assinou com Sofia Martins a nova imagem do festival de cinema independente IndieLisboa. Há uma vertigem deliciosa na natureza que Pedro Lourenço criou com os seus tigres e os seus pássaros que nos deixa com vontade de viver nesse ambiente onírico. Mas há também uma noção do caminho ainda a percorrer para desbravar o resto do mapa desconhecido. Afinal para onde vai o tigre? O futuro afigura-se imprevisível e por isso mesmo mais apetecível.

Rita – Deixa-me explicar-te como é que fazemos o Boca a Boca. Sentamo-nos com pessoas que admiramos e conversamos sobre o que têm feito e o que nos inspira no seu trabalho. E normalmente queremos saber como tudo começou. Como é que começaste a desenhar?
A desenhar? Há muitas vidas antes disso.

Rita – Então comecemos pelo início. O desenho foi um interesse que começou em miúdo?
Quando era miúdo, gostava das coisas de que os miúdos gostam: banda-desenhada e desenhos animados. E já tinha consciência de que a origem daquilo era o desenho. Mas o interesse pelo desenho também ia sendo fomentado. O meu pai er artista plástico e sempre que o visitava no seu atelier ele procurava uma forma de me ocupar o tempo. Dava-me algo para as mãos para eu fazer. Podia ser barro, mas também podia ser uma folha em branco. Portanto, isso sempre esteve em mim e apenas foi crescendo. Mais tarde, aos 15 ou 16 anos, comecei a querer fazer banda-desenhada, mas enlouquecia com aquilo. Para mim, tinha de ser perfeito e, ao fim da quinta página, olhava para o início e queria refazer tudo. E o processo repetia-se sempre que chegava à quinta página de novo. Na altura, já tinha bandas e pensei que aquilo talvez não fosse para mim, por isso arrumei os pincéis e fui tocar.

Rita – Começaste por tocar o quê?
Acho que fiz tudo um pouco à luz do meu pai. Aprendi a tocar guitarra por ver o meu pai a tocar e lá lhe pedi para me ensinar alguns acordes. Depois tentava aprender o resto com os discos e, mais uma vez, tive a sorte de ter por perto a colecção de discos dele. Também esta me moldou. Na escola, segui o curso de Arte e Design, mas a verdade é que eu não estava lá.

Rita – Onde é que estavas?
Estava fora dali, queria fazer banda-desenhada. Ia para as aulas desenhar ou projectar o fim-de-semana de ensaios com a banda.
Rita – Mas tinhas um plano definido ou sabias que querias ser artista?
Não tinha plano nenhum.  Queria simplesmente fazer aquilo que achava que melhor sabia fazer. Quando saí da escola, fiz o serviço militar obrigatório e naqueles três meses, fiz-me muitas perguntas sem nunca perceber muito bem o que devia estar lá a fazer. Acabei por ser enviado para o quartel-general, aqui em Lisboa, onde passei quatro meses sentado à secretária… a desenhar e a ouvir música.

Vera – Não está mal.
Não está mal, mas preferia ter estado cá fora. Nesses meses pouco aprendi, aquilo não fazia grande sentido para mim.

Rita – O que começaste por fazer quando saíste? Estavas ansioso por começar a trabalhar?
Não me sentia ansioso para trabalhar, mas queria voltar a tocar, a fazer música. E gostaria de estar por perto dos discos. Comecei a trabalhar na Valentim de Carvalho do Rossio onde conheci algumas das pessoas que vieram a fazer parte da minha vida dedicada aos discos. Conheci o Zé Moura, o Dexter, o Fred Somsen que mais tarde me levaria até à Ananana. Encontrámo-nos todos aí e começámos a dar-nos todos muito bem. Isto foi em 1995 ou 1996, acho. Guardo histórias dos dias na Valentim de Carvalho.

Rita – Qual era a tua secção na loja?
Era a secção dos independentes. Depois disso, acho que o Fred e o Zé devem ter falado com o Pedro Santos e por volta de 1999 convidaram-me para ir para a Ananana. Estive alguns anos lá, mais precisamente até 2005, altura em que eu e o Pedro fomos para a Flur e o João Santos criou a Mbari. Cerca de dois anos depois, recomecei a desenhar. Senti que completar 30 anos trouxe-me alguma calma e comecei a desenhar a pouco e pouco para perceber se ainda sofria daquele frenesim que me impedia de me sentir satisfeito com o que desenhava. Então, subitamente, comecei a achar que a ilustração me poderia interessar. Não sei bem o que é isso da ilustração, ainda hoje tento perceber. Mas apetecia-me simplesmente desenhar. Na altura, comecei a publicar em jornais e revistas e tudo começou a crescer, o que me levou, em 2009, a sair da Flur. O meu barómetro da felicidade não estava positivo, senti que tinha de decidir algumas coisas determinantes na minha vida: não estava a ficar mais novo, já não me conseguia rir todos os dias. Comecei a perceber que já não tinha a energia que a loja precisava e percebi que já não era a pessoa certa para estar atrás do balcão. Tinha dois caminhos possíveis naquela altura: manter-me na loja ou continuar a desenhar, que já me exigia mais tempo do que aquele que eu tinha para dar. Então decidi passar a desenhar a tempo inteiro. Também porque na altura recebi uma proposta para trabalhar numa campanha para publicidade para a Tagus com a Casa d’Este Senhor, que acabou por durar dois anos. Foi óptimo, permitiu-me desenvolver o meu trabalho próprio, que é o que realmente me interessa. O meu trabalho pessoal é o fio condutor que liga estes mundos.

 Vera – Quer dizer que quando alguém te faz encomendas é porque quer exactamente o teu traço.
Sim! Creio que não só o traço mas também um pouco do universo gráfico. Hoje revejo-me em muito do trabalho de ilustração que aceito. No início, nos primeiros anos a fazer ilustração, ainda em paralelo com os discos, acontecia receber propostas que começavam com um simpático “gostamos mesmo do teu trabalho” e que na linha seguinte passavam para “se pudesses fazer mais como aquele outro” ou “naquele estilo”. Não aceitava, não seria bom a fazê-lo, claro!

Rita – Durante o período dos discos, não desenhavas absolutamente nada?
Não desenhava, tocava. Só a partir de 2007 é que começa a haver uma sobreposição. O desenho fez fade in e a música fez fade out. Até que, em 2008, precisei e tive que definir algumas coisas na minha vida e coloquei o tocar música em stand by.

Vera – Lembro-me perfeitamente da primeira vez que te vi tocar em 2006 ou 2007 no Out.Fest com o Rafael Toral. Tinhas uma camisola verde.
Sim. Foi um trio com o Afonso Simões e com o Rafael. Esse concerto foi uma consequência do trabalho que já fazia com o Sei Miguel. Eu tocava com o Sei e o Rafael também, é normal que as pessoas partilhem vocabulários e queiram fazer algumas coisas juntas.

Rita – Deixa-me interromper para te perguntar: quando é que começaste a tocar com o Sei Miguel?
Foi por volta de 2002. A nossa relação já era antiga. Em 1996 estava a tocar com o Bernardo Devlin. O Bernardo era o aparente produtor de uma banda industrial em que eu tocava e que passou três anos na garagem. Houve uma revolução na banda, o Bernardo achou-me piada e convidou-me para ser o percussionista dele. Pouco tempo depois, o Bernardo começou a preparar um disco e convidou-me para gravar com ele o Albedo na igreja da Cartuxa. Entrámos às 18h, a missa acabou, entrou toda a gente, talvez umas 20 pessoas, e saímos quando o dia nasceu. Dois desses convidados eram o Sei Miguel e a Fala Mariam que, coitados, passaram uma noite ao frio à espera sentados nos bancos pela vez do seu take na gravação. Foi aí que começámos a falar. Eles depois convidaram-nos para fazer uma pista de um ambiente de clube, para o disco Token, em que se ouvem copos com gelo e isqueiros a acender e eu fiz isso. Depois não me lembro muito bem. O Sei Miguel também já era meu cliente dos discos.

Rita – Tens muitos amigos que eram clientes dos discos?
Conheço muita gente por causa dos discos. Alguns ficaram meus amigos.

Rita – Há uma troca muito pessoal quando no acto de vender um disco.
Sim, principalmente na Ananana e na Flur. Eu sabia o nome de praticamente todas as pessoas que entravam pela porta – o que também diz muito do espectro da clientela. E depois tinha conversas de balcão, quase como se fosse um barman. Alguém relatava “Ah!, esse disco talvez não, estou a passar por uma fase menos boa” e eu tentava ajudar com outro.

Rita – Com os discos não tenho mesmo essa experiência, mas nós temos dois amigos livreiros que sempre faziam isso. Quando chegavas à livraria, eles quase que davam uma solução em forma de livro para o teu diagnóstico.
A Catarina (Barros) e o Ricardo (Ribeiro)?

Rita – Sim! Crias uma confiança muito cega em pessoas que ganham essa capacidade de corresponder ao teu vazio com um livro ou com um disco.
É verdade. Eu encontrei-me um bocado nesse processo. Acho que sempre fui um tipo muito tímido e reservado. Lidar com pessoas era quase um castigo, sentia-me lançado às feras.

Rita – Mas tu também te colocaste nessa posição voluntariamente.
Nem por isso. Mas as coisas começaram a acontecer. Na Ananana, começámo-nos a envolver mais no trabalho, passámos muitas horas juntos, 6 dias por semana, às sextas jantávamos juntos e convidávamos pessoas para se juntarem. Um grupo de amigos que foi crescendo na loja e à mesa e que até teve direito a um crachá oficial, cortesia do Pedro Gomes. Ele e o André Santos, que mais tarde também se juntou à Flur, faziam a zine Puta da Subjectividade e foram alguns dos amigos que apareceram nesses anos. Jantávamos todas as sextas-feiras na Casa da Índia. Fechávamos às 19h, fazíamos uma mesa familiar no restaurante e depois abríamos de novo às 21h.

Rita – Eram bons tempos? Tens saudades disso?
Foram tempos bons, sim! Mas não tenho saudades. Continuamos próximos e vivemos aquilo na altura em que devia ter sido vivido. Para me certificar que esses tempos tinham passado, pouco tempo depois de ter saído da Ananana, voltei a jantar na Casa da Índia e apercebi-me que era um lugar muito deprimente. O tempo foi trazendo outras coisas, outras formas e direcções, mas que também foram interessantes.

Rita – Qual foi a melhor parte depois disso, quando começaste na Flur?
A melhor parte de ter passado por estes sítios todos, foram as pessoas e foi aprender que tudo dependia de nós. Na Flur, tal como na Ananana, fazíamos praticamente omeletes sem ovos. Tínhamos pouquíssimo dinheiro, mas ele tinha de chegar para fazer encomendas todos os meses. Foi bom sentir que era possível fazer algo de raiz. A Flur já existia e nós entrámos numa altura de alargamento para a distribuição – que acabou por não resistir ao mercado.

Rita – Mas foi na Ananana que perdeste a tua timidez?
Sim, comecei a aprender a relacionar-me com as pessoas que iam conhecendo.

Rita – E nesse processo de conhecer pessoas começaste a sentir que elas exerciam alguma influência sobre ti? Pergunto isto, por causa da tua história com o Sei Miguel e com a Fala Mariam, pessoas que encontraste quase por acaso.
Foi mais ou menos por acaso. Eles faziam parte da esfera de pessoas que rodeavam o Bernardo, de quem muito gosto, e cruzávamo-nos de vez em quando. Tornámo-nos muito amigos e foi isso que permitiu que continuássemos a trabalhar ao longo destes anos. Eu parei de tocar em 2008 e o Sei foi buscar-me em 2012 para a Cantata Mussuranae continuei para a segunda encarnação do Carro de Fogo, que tinha nascido pouco tempo depois do meu interregno.

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Rita – Como é trabalhar com o Sei? Esta pergunta é quase só uma curiosidade minha.
O Sei Miguel ensinou-me e continua a ensinar muita coisa. Temos a música e as artes gráficas em comum. Inicialmente, foi um choque, porque não estava habituado a tanta disciplina de ensaio. Ele é bastante exigente e preciso. Vive para a sua música e criou uma obra e um universo únicos. Eu entrei para fazer as funções de um percussionista, mas pouco depois passei para a electrónica. Depois comecei a aborrecer-me com o computador, mas mesmo assim, por um curto período de tempo ainda toquei um baixo sintetizado que programei de raiz mas logo depois voltei às guitarras, também para colmatar a falta de um baixo na formação. Há toda uma gramática dentro da composição do Sei Miguel que é completamente singular. Recordo-me de assistir a concertos do Sei Miguel no final dos anos 1990 e perguntar-me como é que tudo aquilo se processaria, se estaria escrito, como seria o mecanismo da máquina. Depois tive a oportunidade de começar a trabalhar com ele e de estudar teoria e método aplicada aos vários instrumentos que toquei antes mas sobretudo, de uma forma mais aprofundada, ao baixo eléctrico.

Rita – Só tocas com as formações do Sei Miguel? Não tocas sozinho só para ti?
Actualmente, só me interessa tocar com pessoas. Se não, torna-se um processo muito solitário e eu já passo muito tempo sozinho a desenhar.

Vera – Não és a primeira pessoa que oiço dizer isso. O João Maio Pinto, por exemplo, já me disse várias vezes o quão solitário consegue ser o processo.
Verdade. Mas o João divide estúdio com os Maga. Logo aí estão três pessoas de quem gosto e cujo trabalho admiro. Já eu não me vejo a fazer a mesma coisa, a dividir espaço com alguém. Imagino que se dividisse estúdio estaria sempre a interagir com os outros, sem momentos de concentração. Por outro lado, almoço frequentemente com o João e com os Maga e esses momentos em que partilhamos o que nos interessa também são muito importantes para mim. Também por isso é que só me interessa fazer música com outras pessoas. Gravo muito sozinho, mas é sempre encarado como um estudo de algo.

Rita – Tenho ideia de que és uma pessoa muito estudiosa.
Um bocadinho. O Miguel diz que eu estou continuamente a tentar superar-me e aperfeiçoar o que já está bom.

Rita – És muito duro contigo?
Sim, prefiro ser eu a ser duro comigo.

Rita – Mas depois chega uma altura em que tens de te libertar da ideia de perfeição e tens de pôr o que fazes cá para fora, não?
A noção do caminho é mais importante do que o fim, do que atingir uma meta. Um lugar comum, mas que tenho presente. Não procuro a perfeição nas formas ou naquilo que desenho. Aprendi a incorporar o erro e isso foi mil vezes mais importante. Confere carácter e vida ao traço? Talvez.

Rita – Até porque tu tens uma preocupação em ir construindo gradualmente esse acervo das tuas figuras, das tuas personagens.
Não lhes chamaria personagens. Penso mais em termos de universo. Aquilo de que gosto e que admiro desde sempre, na música, nas artes gráficas, no cinema, é quando alguém constrói o seu universo e te convida a entrar lá. Partilha esse universo contigo. No fundo, é nesses termos que eu tento trabalhar.

Rita – Sempre tiveste consciência disso?
Não. Só ganhei essa consciência com a música e com figuras muito particulares como o John Cage ou o Sun Ra. Também com o Jack Kirby na banda desenhada. E é isso que eu admiro no trabalho dos outros. Não é que estejam a bater na mesma nota durante toda a vida, mas vão explorando um mapa. Quase como naqueles jogos de Warcraft em que te dão um ponto do mapa e tu tens de ir desbravando o resto do caminho. Vou desbravando o caminho e face ao que vou encontrando vou renovando o meu discurso, actualizando o léxico.

Rita – Mas quando entram na equação a publicidade e as encomendas, tens de assegurar que não compromete a identidade do teu universo. Isto tem sido um problema?
Tenho tido alguma sorte, mas também não aceito nada que comprometa o rumo do que quero fazer. Se não me revejo ou não vibro com uma proposta, então provavelmente significa que não sou a pessoa indicada para o fazer. Se eu não conseguir reconhecer-me naquilo que me propõem, prefiro não fazê-lo. Mas se estamos a falar de publicidade, é certo que muito pode mudar no caminho, no decorrer do processo de trabalho e com isso é preciso contar desde logo.

Rita – Nesta tua ligação à publicidade e à comunicação, não sentes por vezes que estás a oferecer a tua mão e o teu traço às ideias de outros?
Sim, claro! É sempre um compromisso. E uma relação comercial, claro! Muitas vezes sou chamado a participar na parte criativa e isso é meio caminho andado para a coisa acontecer. Mas também há desafios que à partida estão fora do meu quintal e que me são propostos sem que eu tivesse parecer na parte criativa e que me dão gozo. Também não quero ser só o tipo da fauna e flora, se bem que são uma constante no meu trabalho pessoal mais recente.

Rita – E existe algum motivo para assim ser? Eu, pessoalmente, acho que corresponde tudo a um universo muito onírico.
Sim, percebo porquê! Mas muitas vezes é só porque sim, porque me dá algum gozo desenhar natureza. Não é uma representação muito realista, normalmente há bastante abstração. E depois, penso sempre que é aquilo que permanecerá depois de nós. Há aqui um estranho paralelismo que traço mas que não consigo explicar facilmente, com aquela mensagem recorrente nos discos dos Pink Dots, “Sing While You May”.

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Rita – Para mim, não deixo de ver o teu percurso como uma ascensão meteórica desde que voltaste ao desenho a partir de 2007. Explica-me como é que passaste de desenhar cartazes e fazer ilustrações para revistas como a Op. para uma plataforma sem fronteiras: já fizeste coisas para o The New York Times e para a Rolling Stone. Foi acidental? 

Eu fiz muito pouco para que isso acontecesse. A história do The New York Times é simples: um dos editores era um daqueles amigos desconhecidos do Facebook e propôs-me ilustrar um artigo para o jornal. Na altura, disse imediatamente que não podia. Estava em mudanças, a minha casa estava toda empacotada e tive de declinar. Mas deixei a porta aberta para novas propostas. Obviamente pensei que ele nunca mais me iria dizer nada, mas uma semana depois enviou-me um novo email.

Rita – E depois disso foi a Rolling Stone.
Aconteceu mais ou menos da mesma forma. Nem sei bem a origem. Isto soa mal, mas eu faço muito pouca promoção do meu trabalho. Sinto que devia ser muito activo, mas limito-me a alimentar as redes sociais com imagens. Fico contente que o meu trabalho chegue a pessoas e a sítios, no entanto, tenho consciência de que não faço o que devia fazer para o promover. Por outro lado, sinto que se me dedicar a isso, não me sobra tempo, nem concentração nenhuma para desenhar e eu quero ser o tipo que desenha.

Rita – É difícil ser quem cria, quem promove e quem cobra o dinheiro em simultâneo. Lembro-me de me teres dito há algum tempo que o teu plano para este ano era “reinventar a tua linguagem” e tenho visto que tens desenhado muitos pássaros. Consigo imaginar que desenhes muito para desbravar o teu território, mas depois o que é que acontece a esses estudos? Editaste uma zine há muito tempo, chamada Blues Control, mas nunca mais equacionaste editar nada?
Editei o Blues Control e, logo a seguir, segui o impulso juntamente com o Márcio Matos e o Zé Moura de fazer uma chancela chamada Príncipe. Editámos duas zines, um split meu e do Márcio e outra dos Aquaparque com a parte gráfica assinada pela Joana da Conceição. A Príncipe acabou por implodir e renascer como a Príncipe Discos, uma editora de música.

Rita – Então acabas por ir emprestando esses elementos que desenhas só para ti a outros músicos.
Sim. Gosto sempre dessa ligação entre os dois terrenos onde me movimento: a música e o desenho. Funciona muito bem para mim se determinada banda se revê na imagem que faço e tem vontade de levar aquilo até ao seu público.

Rita – Há algum desses casos que te tenha dado particular prazer?
Acho que todos. Normalmente, envolvo-me com projectos e pessoas dos quais gosto. Mesmo quando não conheço as pessoas, como no caso dos Black Bombaim, há uma identificação com a música e isso motiva o meu envolvimento.

Rita – Já aconteceu o inverso? Tu propores-te a desenhar para alguém em particular?
Aconteceu com os meus primeiros posters, que serviram de tubo de ensaio para procurar a minha própria linguagem. Apetecia-me experimentar com cores e tintas e comecei a fazer posters para os eventos do Lux. Lembro-me de fazer para o DJ Shadow e para as E.S.G. (acho que ainda tenho um poster assinado por elas que o Pedro Fradique me ofereceu).

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Rita – Como é que eram esses posters iniciais?
Eram uma coisa feita com stencil, muito longe do que faço agora. Estava à procura de um caminho mas acho que foi ele que acabou por me tocar no ombro e reclamar “o que tu podes fazer é isto”. Tudo isto para dizer que muito do meu processo parece ser aleatório ou até talvez eu não esteja muito consciente dele. O meu e-mail é escrita automática e isso tem uma razão. O que faço tem muito desse processo de escrita automática. Espero muitas vezes encontrar no caminho o vislumbre do que será a próxima parte do meu mapa. E gosto mesmo disso, de me encontrar aí no meio. Penso que se não planear muito, se deixar parte em aberto, tenho mais hipóteses de ser surpreendido.

Rita – E como é que vês o resto do mapa?
Não vejo.

Rita – Não queres ver?
Nada disso. A partir de 2008, desacelarei o passo e comecei a pensar na vida de uma outra forma menos ansiosa com o dia de amanhã, com a próxima semana, com o que vai ser de mim. Preocupo-me muito mais com o que significa o presente momento e estou certo que, se chegar à meia-noite de hoje satisfeito com o que fiz durante o dia, amanhã será igualmente bom. Vai acontecer.

Rita – Vivias muito atormentado com a ansiedade?
Acho que vivemos todos.

Rita – Eu sei que vivemos todos, por isso é que fico sempre surpreendida quando alguém me diz que conseguiu vencê-la.
Não quer dizer que se consiga vencê-la todos os dias. Há sempre angústias, mas não fazem parte da imagem principal, da imagem grande.

Rita – Por vezes, as angústias conseguem ser macro.
Sim. Mas as angústias são sempre do pequeno plano. Eu creio que só posso estar feliz a fazer o que gosto. Os meus dias de trabalho são longos, facilmente chegam às doze horas, muitas vezes 7 dias por semana. É difícil desligar-me do que faço. Mistura-se com a vida e tenho dificuldade em separar as águas. Mas para mim é importante que assim seja e como tal tento que as angústias do quotidiano, quando as há, estejam em segundo plano e não me tirem a concentração e o sono.

Ink and Paper

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